A descaracterização do Cerrado

A região Centro-Oeste tem se gabado de ser a mais próspera do Brasil, mas não só pelo empreendedorismo, ou pelos altos escalões do funcionalismo público do Executivo em Brasília. Coleciona também outros recordes, como a maior produção bovina do país, a maior produção de grãos, ou de algodão, por exemplo.

Parte deste sucesso se deve ao excepcional trabalho de pesquisa agropecuária, assistência técnica e extensão rural, além de financiamentos para incorporação de novas áreas ao processo de produção, comandados pela Embrapa desde os meados dos anos 70.

A região Centro-Oeste é também campeã no desmatamento e na incidência de queimadas. Satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectaram 637 quilômetros quadrados de desmatamento na região entre agosto de 2011 e março de 2012, o que representa um aumento de 96% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Segundo informações do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás (UFG), enquanto alguns Estados, como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, reduziram significativamente o desmate do Cerrado, foi verificado que na região Nordeste deste bioma, onde se encontram Bahia, Piauí, Maranhão e o Tocantins, continua a retirada da vegetação nativa.

Além disto, apenas de janeiro a julho deste ano, o INPE detectou 22 mil focos de incêndio no Cerrado brasileiro, colocando-o na triste liderança do bioma que mais sofre com este problema.

Para se ter uma ideia, em 2011, foram detectados 23,6 mil queimadas em todo o território nacional. Vale lembrar que as queimadas integram os ciclos naturais do Cerrado, mas que eram comumente ocasionadas por raios em períodos de chuva. Estas queimadas naturais são importantes para a manutenção dos processos ecológicos e da biodiversidade, sobretudo nas unidades de conservação. 

Mas hoje, as queimadas ocorrem cada vez com mais frequência nos períodos de estiagem (entre maio e outubro), em sua grande maioria ocasionada pela ação do homem, que busca a renovação forçada de pastagens naturais, e também, a “limpeza” de áreas tanto antes quanto após desmatamentos. A combinação da falta de chuva, clima seco e temperatura alta amplia exponencialmente o problema.

Além de danos irreparáveis a este sensível bioma, queimadas também contribuem para a emissão de gases de efeito estufa, e coloca o Brasil entre os maiores emissores no ranking mundial.

O Cerrado brasileiro tem passado por uma transformação drástica desde que todos os olhos se voltaram para o enorme potencial produtivo da região. O aumento da exportação agrícola brasileira, que faz com que hoje o Brasil seja o segundo maior exportador de soja do mundo, por exemplo, se deu às custas de grande degradação ambiental, segundo atesta estudo da WWF-Brasil.  

Ao mesmo tempo em que lavouras avançam sobre pastagens, a expansão da fronteira agrícola invade áreas de cerrado e florestas na região Centro-Oeste, aumentando ainda mais o stress sobre frágeis ecossistemas.

No ambiente do Cerrado são conhecidos até o momento mais de 1.500 espécies animais, formando o segundo maior conjunto animal do planeta. Além de sua grande extensão e diversidade ecológica, das 12 importantes bacias hidrográficas do Brasil, oito têm as nascentes no Cerrado. 

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