O tratamento para a Dependência Química

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“Nenhum tratamento é efetivo para todos os pacientes”, é isso que afirma logo o primeiro, dos treze princípios do tratamento efetivo para a dependência do mais respeitado instituto de pesquisa sobre drogas do mundo, o NationalInstituteonDrug Abuse (NIDA). Depois de anos de pesquisas clínicas e consensos de profissionais, o instituto conseguiu, enfim, estabelecer treze princípios para se coordenar o tratamento da dependência química.

São eles:

1 – Nenhum tratamento é efetivo para todos os pacientes
2 – O tratamento necessita ser facilmente disponível
3 – O tratamento deve atender às várias necessidades e não somente ao uso de drogas
4 – O tratamento necessita ser constantemente avaliado e modificado de acordo com as necessidades do paciente
5 – Permanecer em tratamento por período adequado é fundamental para a efetividade
6 – Aconselhamento e outras técnicas comportamentais são fundamentais para o tratamento
7 – Medicamentos são importantes, principalmente quando combinados comterapia
8 – A comorbidade deveria ser tratada de forma integrada
9 – Desintoxicação é só o começo do tratamento
10 – O tratamento não necessita ser voluntário para ser efetivo
11 – A possibilidade de uso de drogas deve ser monitorada
12 – Avaliação sobre HIV, hepatite B e C e aconselhamento para evitar esses riscos
13 – Recuperação é um processo longo e muitas vezes necessita de vários episódios de tratamento

Certo dia, ouvi um profissional afirmar que nunca tinha visto tanta discórdia em um campo de atenção à saúde como na área da dependência química. Questionando o porquê de tantos conflitos entre os profissionais que lidam com essa realidade.

Isso me levou mais uma vez a refletir sobre os modelos de tratamento e principalmente sobre a ética, que muitas vezes falta em alguns profissionais que julgam seu modelo de tratamento mais eficaz do que os demais, e menosprezam e desqualificam aqueles que também tentam, de alguma forma, mudar a realidade social em que o Brasil se encontra.

Com essa visão é possível entender que de fato não existe um único modelo de tratamento que possa recuperar todos os dependentes químicos, para comprovar essa tese basta observar o número extremamente alto de recaídas que levam usuários de volta para o mundo das drogas todos os dias, o interessante é que muitos desses que recaem nas drogas, acabaram de sair de consultórios com profissionais especializados, grupos de autoajuda ou acabaram de passar por meses de internação nas ditas melhores clínicas do Brasil.

Sendo essa uma realidade inevitável, então qual seria a solução? Como poderíamos contribuir no processo de recuperação de um dependente químico ou como prevenir essa “bendita” recaída?

De fato não é muito difícil encontrar a resposta para essas perguntas, antes de qualquer aspecto, se faz necessário que em vez de competição e até desmerecimento entre as propostas terapêuticas vigentes, haja parcerias dispostas a trabalharem junta em prol daquele que está sofrendo, para isso, é preciso humildade por parte dos profissionais para que cada um entenda o seu limite e principalmente tenha consciência sobre qual forma pode ajudar no processo de recuperação de um dependente químico.

Costumo dizer que a recuperação pode ser comparada a uma obra de arte, especificamente um livro, e gosto muito de imaginar como seria esse livro se fosse escrito por grandes nomes da literatura brasileira. Imaginemos que Graciliano Ramos, José de Alencar, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Guimarães Rosa e outros grandes nomes, cada um escrevendo um capítulo de um mesmo livro, quão grande seria esse feito.

Assim, pode ser a recuperação para um dependente químico com a colaboração da maioria dos profissionais e instituições possíveis, cada um dando sua contribuição, Psicólogos, Médicos, Assistentes Sociais, Comunidades Terapêuticas, CAPs AD, Clínicas de Reabilitação, Consultórios de Rua, Grupos de Autoajuda (AA, NA, Alanon, Amor Exigente…), Religiões e outras instituições e profissionais, todos salvando mais uma vida.

Texto de Luan Gama
Psicólogo (CRP-15/3328)
Especialista em Dependência Química pela USP.
Doutorando em Psicologia Clínica pela UCES.

 

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